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Pedra do Porto

História e Património do Concelho da Nazaré

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Os Passarinhos

Carlos Fidalgo, 29.12.21

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As motivações que temos na vida parecem ter origem nos mais recônditos lugares da nossa memória.

Momentos maus, momentos bons, tudo faz parte de uma “história de vida” comum a todos.

Desta feita a memória recorda os pássaros da minha vida.

Pintassilgos, Jovins, Canários, o meu pai lá os trazia e dizia que tinha sido o amigo A, B ou C que lhe tinha dado…e era assim mesmo.

Aqui, como noutros lugares os “passarinhos”, como dizia a minha mãe, por vezes chateada pela alpista espalhada no chão da cozinha, faziam parte da família.

Era uma disputa, porta a porta, no cantar dos pássaros, e os que “dobravam” eram campeões de audiência, até de inveja!

O canário, o jovim e o pintassilgo eram os que mais se adaptavam a essa vida “familiar” e nem o “ar lhes podia chegar”.

Bem tratados, gaiolas lavadas diariamente e alpista fresca todos os dias.

Mas isso era noutro tempo. No tempo em que cada casa, a cada porta, havia um “passarinho” a cantar. Um “passarinho” que, no fundo, era o orgulho exterior daquela família, o que se conseguia ouvir para além das ondas do mar.

É difícil descrever o que os “passarinhos” significavam para as pessoas da Nazaré. Mas sem “ligação” direta com o peixe que pescavam, e não vivendo da agricultura, restava-lhes, perante o tempo disponível, “o passarinho”, já que aquários não era coisas de pescadores e a agricultura tinha sido por muitos esquecida.

Este - adiantando - era um “maçaroco” - Papagaio-do-senegal (Poicephalus senegalus).

O “maçaroco” foi um dos “passarinhos” que o meu pai trouxe numa das suas viagens da marinha mercante e foi, de todos, o mais interativo.

Tinha uma “vida livre”.

Eu vivia num quintal onde ele andava livremente com as patas viradas para dentro, assim como quem tem pé-chato, subindo e descendo da gaiola sem porta. Era, por assim dizer, uma alegria, uma companhia.

O “maçaroco” foi feliz e eu, em particular, fui muito feliz por tê-lo e mais não cabe aqui.

O que cabe aqui é este testemunho de vida, acima de tudo, de saudade, desses tempos em que os meus pais estavam neste mundo e em que os “passarinhos” eram, efetivamente, um elemento identitário das famílias desta terra.

Já não há gaiolas em casa, nem quintais, nem pássaros a passear pelo quintal, agora vazio de identidade, ficou apenas a recordação de tempos passados.

 

Imagem: Espólio do responsável deste Blog.

 

 

"Os Pássaros" - Ruy Belo

Carlos Fidalgo, 21.09.21
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Foto: @Carlos Fidalgo

*

Os pássaros nascem na ponta das árvores

As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros

Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores

Os pássaros começam onde as árvores acabam

Os pássaros fazem cantar as árvores

Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se

deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal

Como pássaros poisam as folhas na terra

quando o outono desce veladamente sobre os campos

Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores

mas deixo essa forma de dizer ao romancista

é complicada e não se dá bem na poesia

não foi ainda isolada da filosofia

Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros

Quem é que lá os pendura nos ramos?

De quem é a mão a inúmera mão?

Eu passo e muda-se-me o coração

*

Ruy Bello, "Todos os Poemas", Edição Assírio & Alvim, 2000.